8 de outubro de 2015


Meu jovem, havia um tempo, vou agora contar. Um tempo que via girassóis em suas respectivas funções. Antes de parar aqui, atrás deste balcão, acreditando ser o que é a vida e o que eu queria, fui outra e queria outras coisas. Escrevia poesias, eu passava longas tardes a pensar e a sonhar. E sempre entendi que era feliz por aquilo. Presa numa gaiola aberta, contente.

Nunca tive medo da vida, entendes... Tinha medo de mim. Era intensa e não me compreendia, sempre fui muito sincera. E sentir era bonito, e doía, mas era puro. Parece-me que não pensar muitas vezes é a forma mais rápida de ser feliz. Mas o que me descontentava era não me contentar. A felicidade de certo é boa, mas eu não queria apenas ser feliz. Eu queria a vida, e esse querer me parecia perspicaz.

Entre o medo e a coragem, a fé e a descrença... Eu confesso agora que senti coisas com tamanha agudez e tanto espirito que não sei como fui capaz de não morrer por aquilo. Eu confesso a ti que morreria, se fosse possível. A minha vida já valera a pena desde então. De frente ao espelho observava minha alma em meus olhos.

E hoje estou te contando pois não escrevo poesia. Estou te contando porque não vou me trancar no quarto e chorar. Estou te contando porque meu olhar se tornou impassível. Veja: estou morna. E todas às vezes que te encontro sinto a mesma coisa. E sou a mesma pessoa. E nada te surpreende, nem nada surpreende a mim. Compreendes?

Eu poderia ter morrido naqueles dias, pois não sou nada, além dum poço de sentimentos seco. Longas cartas de amor, poesias e descrevê-lo não faço mais. Sou ainda muito funda, muito intensa. Mas tranquei-me naquela gaiola. E quem sabe um dia ainda me chove uma paixão que me permita ser poeta outra vez.

Então, tu me dizes: o que és agora? Por hora, respondo-te que sou a memoria do que fui. A consequência do último verão.

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2 comentários:

  1. Entre o céu e o chão, entre o claro e o breu, entre o sim e o não, eu.
    GK

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  2. Certos "sofrimentos" nos fazem mudar de percepção e nos ausenta de nos sentimos surpreendidas. Belo texto. Parabéns. bjs

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