30 de agosto de 2015


Era dia comum. Acordar, vestir-se, salto, batom e bolsa cheia. Um detalhe. A bolsa cheia dava essa impressão, de vida preenchida. A vida dentro da bolsa. Transbordando, ali, apertada, fechada. Carregada. Mas enfim, carregava aquela bolsa cheia, pesada... E corria, contra o tempo, contra o ônibus que ia passar, lotado, mais carregado, e o ar parecia pesar. E ali ela se equilibrava, entre o meio fio e o medo, de ser assaltada, de ser atropelada, de ser conhecida, de ser encontrada. Ela fugia de si, em cima do salto e de batom, ela fugia da vida e ia de encontro ao futuro. E o futuro era um saco de cansaço sem fim.

Mas ela sentia que estava no caminho certo, sem certeza, com medo.

Seus olhos tentavam não perder o foco, mas nem sempre conseguiam, miravam o céu, analisavam os moços que passavam do outro lado da rua, e ela tentava esconder, ser discreta, não esbravejar o que queria, o que sentia, a solidão, a correria, a realização pessoal, o desejo. Os passos iam retos em uma direção e o coração batia pelos lados, tomando rumos sabe-se lá Deus para onde. Mas seus olhos desviavam e, nestes desvios, acabaram de encontro à uma janela.

E naquela janela, no segundo andar do prédio mal-acabado de esquina, escondia-se uma menininha entre as cortinas. Fitava então a moça pelo qual seus olhos fora atraída. E entreolharam-se por alguns segundos, naquele dia comum, ela encontrou repouso nos olhos daquela menina. Que tinha tanto sonho, que tinha tanta inocência, que tinha pouco de vida, e não sabia, que esse pouco era tudo. Era tudo. Era absolutamente tudo.

Mas já estava perdido. Aquela menina não a fitava por acaso. Ela espelhava-se na moça. Era seu passado. Já sabemos que um dia, aquela menina, que ali, de manhãzinha, olhava pela janela as pessoas que passavam, um dia haveria de ser as próprias pessoas que passavam. Eu quis. Você quis. E os braços da casa com sua proteção... Descartamos. Ansiamos o mundo, e vamos para ele. Seja com a bolsa cheia, com o bolso vazio... Vamos nos contaminando, o batom escurece, o salto aumenta... E não somos mais menininha que olha na janela.

E aquela moça, que passava pela rua, um dia quis tanto passar pela rua, mas já não era da forma que esperava. Passava agora, mas de outra maneira. Porque mudou. Mudou seu jeito de pensar, seu jeito de andar, seu jeito de ser mudaram. E seu modo atual não a permitia usufruir de sua expectativa que criara há anos atrás. Se pudesse, diria isso à menina da janela. Mas sabia bem que ela não entenderia.

E continuou a caminhar.

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3 comentários:

  1. Que lindo!
    Hoje, Suzana, não comento com uma de minhas frases, como costumo fazer, mas comento destacando que me salta aos olhos o quanto a tua escrita tem amadurecido! Impressionante! Não pare nunca! Vc escreve lindamente!
    GK

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  2. Eventualmente eu ando para o caminho certo sem ter certeza de que é certo... é como seguir o coração. Refleti lendo seu texto. Adorei o que escreveu. =)

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  3. Belo texto e boa reflexão!!!
    http://pensologosoupensador.blogspot.com.br/

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