5 de junho de 2015

cadeiras

A cabeça pendia, o corpo pesava, tossia, mais por não suportar o fôlego do que por qualquer outra coisa. As lágrimas desciam quase ácidas, quase doces, difundiam-se com seu desespero, seu rosto vermelho. Doía. Algo ali doía muito. Não foi capaz de distinguir o que era.

Depois de um tempo, a cabeça apenas pendia, ou só o corpo que pesava e nada mais. E depois era o ser que não suportava sorrir, que precisava desesperadamente se apoiar em alguém. E depois endureceu. Já não era capaz de chorar, secou-se aquele rio que tanto dispunha de uma fonte quase insuportável de uma lástima honrosa, talvez amor. E aprendeu a sorrir. E viu que sorrir não era tão digno, mas era mais fácil, era mais bonito.

Um dia disseram "eu pensei que vocês eram para sempre". "Eu também pensei", vagou-se no ar como resposta, como uma confissão. Eu também pensei. Não mentia quando acreditava naquilo que parecia tão terno, pretensioso ao eterno. Eu queria, e por querer ser tão vago, tão pobre de evidências, precisei dizer em alto e bom som que seria. Proferir ao vento, ao infinito, ao além, ao destino, enfim, à ordem superior das coisas que me ouvisse, que me rogasse e desse conta do que não dependia de mim. Pareceu que ser feliz era aquilo, e eu não podia controlar a medida da felicidade. Mas talvez eu pudesse fazer alguma coisa. Não fiz porque confiei demais no destino. 

A dor, que doía, era a vida. Que segue, que estilhaça, que topa com o todo e com o todo se aparta. E o amor que se agarrava à vontade de viver, se esvaía, e parecíamos um pouco mortos, desaprendidos de amar, decepcionados com as preces que não se atendem, justo estas que suplicávamos tanto como louvor. A vida que ardia doía e não se importava de incomodar. 

Para onde vai o amor quando ele acaba? 

Ele parece se esvair de nós por choros, contrações, dores, apertos no peito, de forma que se seque, que se desfaça das coisas boas que há tão pouco acreditávamos. Torna-se para nós uma mentira, um podre, um erro, uma doença. Mas como nunca morre, se vai para algum lugar. Talvez habitar no para sempre, um lugar secreto entre as vias lácteas que o tempo nos esconde. Talvez na memória dos corações bons, no peito dos que muito suportam e nada temem.

Entre o sorriso e a solidão, entre os vícios e as curas, entre a saudade e o desejo, entre o arrependimento e o desespero. Entre o que sobra de nós (ou o que sobra do que sentimos outrora?), somos cacos, somos restos e aprendemos com o que podemos. Vamos em frente. Com esperança de que se encontre, pessoalmente, a resposta que tanto nos aflige:

Para onde vai o amor quando ele não está mais aqui?

-Nota: Texto inspirado no título do livro "Para onde vai o amor?" de Carpinejar.


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6 comentários:

  1. Amor... Tempo... Egocídio... Tempo... Dor... Tempo... Alívio... Tempo... Amor... Tempo... Egocídio... Tempo... Dor... Tempo... Alívio... Tempo... Amor... Tempo... Egocídio... Tempo... Dor... Tempo... Alívio...
    GK

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  2. Gostei muito do teu blog!
    Se puderes vista o meu e se gostares segue...se seguires deixa comentário :)
    Beijinhos

    http://beautifullsecrets.blogspot.pt/

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