31 de agosto de 2015


Você parou no meu cais como um soldado de chumbo à procura de sua bailarina. Doce mar te trouxe ao cais que atraquei. Eu rodava, naquela caixinha de música, tão sozinha, pouco encanto, centro do meu universo. Foi você que apareceu. Mas senti como se fosse sua mão tirando-me dali. Eu não resisti ao seu universo.

Eu nunca te quis no meu mundo. Queria rodar na sua caixinha salva-vidas. Eu queria o seu mundo, sua terra, seu porto seguro. Sua voz era mais doce que o som do mar. E trazia um tipo de paz que a solidão nunca antes pôde proporcionar. Não quis saber de mim... Quis saber de ouvir sua música, que entoava nas palavras que você dizia, uma a uma, formavam uma só canção, bela e que me fazia dançar.

Dancei para você, no cantinho do seu universo. Tu ria da minha poesia. Me fitava como quem não entendia minha dança, me abraçava como quem me queria ali. Eu não decifrava seus sinais, pois tudo o que queria era dançar, para, quem sabe, te embalar e, você gostar e sorrir. Eu não queria nada além de nós dois ali, atados, calados, procurando refúgio um no outro, enquanto navegando num mar de incertezas.

Apaixonei-me pela esperança de não ficar tão só. Apaixonei-me pela voz que não era coisa da minha cabeça e sim alguém falando para mim. Apaixonei-me pela sua forma de remar, de me assistir, de encontrar terra à vista.

Encontrou terra à vista.

Me deixou lá.

30 de agosto de 2015


Era dia comum. Acordar, vestir-se, salto, batom e bolsa cheia. Um detalhe. A bolsa cheia dava essa impressão, de vida preenchida. A vida dentro da bolsa. Transbordando, ali, apertada, fechada. Carregada. Mas enfim, carregava aquela bolsa cheia, pesada... E corria, contra o tempo, contra o ônibus que ia passar, lotado, mais carregado, e o ar parecia pesar. E ali ela se equilibrava, entre o meio fio e o medo, de ser assaltada, de ser atropelada, de ser conhecida, de ser encontrada. Ela fugia de si, em cima do salto e de batom, ela fugia da vida e ia de encontro ao futuro. E o futuro era um saco de cansaço sem fim.

Mas ela sentia que estava no caminho certo, sem certeza, com medo.

Seus olhos tentavam não perder o foco, mas nem sempre conseguiam, miravam o céu, analisavam os moços que passavam do outro lado da rua, e ela tentava esconder, ser discreta, não esbravejar o que queria, o que sentia, a solidão, a correria, a realização pessoal, o desejo. Os passos iam retos em uma direção e o coração batia pelos lados, tomando rumos sabe-se lá Deus para onde. Mas seus olhos desviavam e, nestes desvios, acabaram de encontro à uma janela.

E naquela janela, no segundo andar do prédio mal-acabado de esquina, escondia-se uma menininha entre as cortinas. Fitava então a moça pelo qual seus olhos fora atraída. E entreolharam-se por alguns segundos, naquele dia comum, ela encontrou repouso nos olhos daquela menina. Que tinha tanto sonho, que tinha tanta inocência, que tinha pouco de vida, e não sabia, que esse pouco era tudo. Era tudo. Era absolutamente tudo.

Mas já estava perdido. Aquela menina não a fitava por acaso. Ela espelhava-se na moça. Era seu passado. Já sabemos que um dia, aquela menina, que ali, de manhãzinha, olhava pela janela as pessoas que passavam, um dia haveria de ser as próprias pessoas que passavam. Eu quis. Você quis. E os braços da casa com sua proteção... Descartamos. Ansiamos o mundo, e vamos para ele. Seja com a bolsa cheia, com o bolso vazio... Vamos nos contaminando, o batom escurece, o salto aumenta... E não somos mais menininha que olha na janela.

E aquela moça, que passava pela rua, um dia quis tanto passar pela rua, mas já não era da forma que esperava. Passava agora, mas de outra maneira. Porque mudou. Mudou seu jeito de pensar, seu jeito de andar, seu jeito de ser mudaram. E seu modo atual não a permitia usufruir de sua expectativa que criara há anos atrás. Se pudesse, diria isso à menina da janela. Mas sabia bem que ela não entenderia.

E continuou a caminhar.

25 de agosto de 2015

Eu queria, no fim do dia, deitar e dizer: Consegui. Me encontrei. To a salvo. Deu tudo certo... Mas eu tenho um livro, eu tenho um verso e uma vontade... Que não cabem em lugar nenhum. E eu nunca me encontro, e nunca é o suficiente.

Eu queria, no começo do dia, ter a certeza de que voltaria para casa viva. E não apenas viva, mas completa. Sem deixar rastros no mundo, apenas pequenas marcas delicadas no coração. Fazer sentido...

Mas parece que a calma é a virtude que meu ser rejeitou. Apesar de estar calma. Apesar de sentir-me em paz. Eu queria mais. Queria correndo, queria gargalhando, embriagada, louca. Tudo está em paz, mas a paz é incomoda quando somos jovens. Queremos sentir a vida, não em sua plenitude, e sim na sua forma borrada, errônea, apaixonada...

É o que é bom? De forma alguma... Mas não nascemos para fazer sentido, agora percebi. Nascemos para fazer sentir. Para sentir pulsar. Para querer demais, vulgar, dando-se o luxo dessas palavras, dessas luzes, da Avenida Augusta. Onde o afeto se torna um borrão, e nossas crenças se diluem no 95% álcool e na falta de lucidez.

Lucidez? Eu desisti de encontrar respostas para minhas perguntas. Permiti viver o dia como ele é. Pensar o que vem a mente. Se preciso, xingar. Se preciso, sorrir. Para a morna rebeldia. Para a norma culta. Para a prova de matemática. Eu me perco no momento que me procuram. E eu não quero mais isso. Eu quero aprender, sim. Mas quero ter a coragem de ser o melhor de mim. Apesar de errada, apesar de incoerente, apesar de infeliz e cansada.

Não queria mais. Passei a querer e o universo me revelou as coisas boas. Me revelou as incertezas da minha vida. Não revelou para que eu soubesse, mas sim, para eu enxergar que não sei. E, apesar da fé, a incerteza finalmente se tornou parte da vida. E foi melhor assim.

17 de agosto de 2015

Ele me olha, eu posso notar. Mais que notar, sinto. Seus olhos penetram-me, invadem-me, e me deixam insegura. Mas eu adoro a sensação de ter seus olhos pousados sobre mim, ou desviados para mim... Ou atraídos por mim. Eu também desvio meu olhar, finjo que não percebo sua existência, enquanto nossos olhares se cruzam, você também não percebe a minha, fingido.

Seu olhar, cheio de malícia e ao mesmo tempo tão recluso, diz tanto! E consente tanto, cala tanto! Eu fui fisgada. Sou vítima. Estou à mercê, necessitada, para que apenas olhes para mim. Não é tudo que eu quero, nem tudo que sinto. Mas seu olhar... É como se fosse uma esperança, de que ainda, na turbulência, na correria, alguém me nota. E me nota por querer, sem ignorar. E tantas pessoas conversam, e tantas abraçam, e todas sorriem, mas nenhuma é como aquele olhar. Nenhuma é tão quieta, tampouco tão misteriosa quanto aquele jeito de desviar os olhos e fita-los em mim.

Delicio-me. E eu quero mais que aquilo. Eu quero seu sorriso. Eu quero sua voz. Eu quero seu timbre... Quero mostrar-lhe que sou mais do que vê, não há medo. Desfazer sua graça, refaze-la em tênue ternura. Em terno corpo, em beijo, em atração. É mais que conhece-lo. É acreditar que essa bobagem pode mudar o rumo de toda uma vida. É acreditar no destino, na química, no cosmo.

E é apenas por um olhar...